domingo, 18 de abril de 2010

No dia de Páscoa

No passado dia 4 de Abril, dia de Páscoa, o Rancho Folclórico da Casa do Povo de Glória do Ribatejo fez uma demonstração de três cânticos religiosos, pertencentes ao folclore religioso da Glória. Essa intervenção foi perfeitamente integrada na missa, o que foi considerado pelo padre como partilha e algo que pode enriquecer o ser humano. Na verdade, o grande objectivo do grupo foi dar a conhecer, no espaço próprio, três preciosidades (tanto do ponto de vista poético, como melódico) que foram recolhidas por Idalina Serrão, nos anos sessenta, junto de mulheres idosas. Houve quem se recordasse dessas peças, por ter ouvido, noutros tempos, à mãe ou à avó. O grupo pôde confirmar mais uma vez que, seja em que área for, a sensibilidade da mulher gloriana é extraordinária e apaixonante para os que amam a cultura tradicional.

Rita Cachulo Pote , Abril de 2010

Torricado

No passado dia 1 de Abril, o Rancho Folclórico da Casa do Povo de Glória do Ribatejo, deu início a mais uma temporada de sabores da Glória, com o Torricado.

A meio do jantar e com uma conversa aqui outra ali foi tempo de silêncio… e contou-se o fado com o amigo e colaborador, o Sr. João Viana.

Logo de seguida, com o ambiente já animado, foi tempo para uma fandangada, com os elementos da casa e dois grandes amigos,Rancho Folclórico da Casa do Povo de Salvaterra de Magos.

E eis o momento mais aguardado da noite, os irmãos, Pedro Viana, à guitarra portuguesa e Bernardo Viana à Viola, tocaram umas modinhas bem portuguesas que fizeram os presentes aplaudir de pé. Na tertúlia em família, regressou o Sr. João Viana com mais uns fadinhos, desta vez, acompanhado pelos seus netos.

Foi sem dúvida uma grande noite de convívio, amizade e de sabor da gastronomia gloriana.

A festa prosseguiu com baile, até um pouco mais tarde, animada pelo grande músico e amigo, Nélson Teles.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Ofertas de Namorados

De entre os hábitos característicos que se podiam observar nos glorianos, há alguns que, pela sua singularidade, merecem ser estudados e divulgados. É o caso das ofertas que os namorados trocavam entre si, como forma simbólica de selar o seu compromisso. A época a que nos referimos (princípio do século XX, até às décadas de 60, 70) pode parecer demasiado recente, mas, se tivermos em conta a lenta evolução que esta sociedade sofreu até há pouco tempo, apercebemo-nos de que a influência da industrialização, nesta altura, era mínima e, por conseguinte, esses costumes permaneceram inalteráveis, desde tempos mais remotos.

Assim, no momento em que se consideravam “um para o outro”, a rapariga confeccionava um conjunto de peças de uso “vulgar” com que brindava o namorado: o taleigo do farnel, a carteira, a charteira, o lenço de assoar e o “lenço dos amores”. O curioso é que estas peças de vulgar nada tinham. Qualquer uma delas era extraordinariamente embelezada com motivos a ponto de cruz, como por exemplo, coroas (o pinto, a coroa dos corações, a coroa das estrelas, etc.), ramos (da sobreira torta, das bonecas, das pombas, etc.), o navio, cercaduras, estrelas e letras que representavam as iniciais dos nomes dele e dela, bem como dos “camaradas” de ambos. Os motivos mais antigos marcavam-se a duas cores – azul e encarnado ou verde e encarnado. Mais tarde, a partir da década de 40, verifica-se algum progresso em relação às cores e aos motivos. Desta época, existem muitos exemplares, marcados a cor-de-rosa e verde, cor-de-rosa e azul, cor-de-laranja e cor de lírio, amarelo e cor-de-rosa, etc. Já surgem rosas, cravos, cravinas e muitas iniciais, artisticamente combinadas. Nesta altura, estes lencinhos são tão profusamente decorados, que quase não resta pano em branco.

Quando e como eram usados?

O “lenço de assoar” andava escondido e usava-se todos os dias. O “lenço dos amores” era cuidadosamente dobrado em quatro pontas, evidenciando os biquinhos que rematavam a borda do lenço e usava-se à frente, na cinta. Semelhantes eram os das raparigas, principalmente, ao Domingo, também na cinta, ligeiramente à esquerda ou à direita.

Resta referir o lenço “à pacha”, usado no dia de ir “às sortes”. Este era um lencinho mais pequeno, também dobrado em quatro pontas e colocado no bolso esquerdo do colete, por baixo da bolsa de relógio. Normalmente, os motivos eram marcados a dois fios, o que tornava a peça mais preciosa. Este pormenor era bastante significativo, pois, quanto mais prendada fosse a rapariga, (e isso examinava-se pelos seus dotes de costura) mais merecedora era do namorado e da sua família.

Em contrapartida, o rapaz oferecia também à rapariga pequenas prendas. Bastava uma “navalhinha bonita” para fazer a felicidade dela. Mas havia muitos rapazes que faziam questão que a sua namorada evidenciasse, de forma bastante expressiva, a sua ligação. Desse modo, ela recebia várias alianças de prata, cravadas de pedrinhas às cores que, no conjunto produziam um certo efeito exibicionista.

Mais tarde, e mostrando também as suas habilidades de artesão, ele confeccionava, pacientemente, algumas miniaturas (cestinhas, cadeirinhas, bolotas) que ela usava ao peito com um raminho de manjerico. Estas miniaturas eram feitas de pau de murtinheira, com a ajuda de uma simples navalha.

Estes motivos talvez possuíssem, em si, algum simbolismo, já que eram sempre estes e não outros. Provavelmente, seriam uma espécie de promessa de futura vida conjugal, pois a cesta e a cadeira são objectos domésticos, de uso quotidiano, e a bolota é símbolo de alimento.

Recolha de Rita Cachulo Pote (Dezembro/2005)

Informadoras: ti Bárbara do João Modesto

e ti Gertrudes Luciana