quarta-feira, 7 de julho de 2010

A História, A Terra, As Gentes

“Em séculos que o tempo devorou, tudo era coutada à sua volta, num mato arrogante onde os homens mergulhavam e se perdiam.

A caça ali tinha os seus domínios e os escassos humanos que por lá viviam eram mais caçadores que camponeses.

A reis e príncipes não passou o local para suas excursões cinegéticas.

E de Santarém a Salvaterra, ali vinham com grande tropel de cavalos abater porcos-monteses…

D. Pedro, apaixonado por aqueles exercícios e encontrado hábeis concorrentes nos caçadores locais, proibiu-lhes a matança da sua caça predilecta, mas em troca concedia à Glória uma carta a mercês, fomentado a agricultura e a pecuária com facilidades de terrenos e pastos…

Então vieram guardas-coiteiros que aumentaram o número de povoadores…

Com a repressão, os glorienses voltavam-se para a charneca, trocando as armas pelo arado, e revolveram-lhe as entranhas, lançando sementes na promissão de colheitas compensadoras…

A propriedade era limitada pelo trabalho – quem mais desbravasse, mais possuía…

A terra era de todos.

E a nova gente chegava atraída pelas facilidades de fixação.

Outra mercê de que ignoro o doador, nem por informações consegui determinar, isentava da militança os homens da Glória. Fugidos à lei da guerra, ali se acolhiam para trabalhar…

Contam os velhos, nas suas recordações de mocidade, que na igreja havia uma pedra onde tal ordem se gravava e que dali levaram não sabem para onde.

Assim, a Glória, nos seus prováveis sete séculos de existência, teria recebido primeiro ribatejanos e alentejões, para a vida da caça, e, depois da mercê de D. Pedro I, gente da Beira arrastada pelas concessões de el-rei para a cultura da charneca…

A Glória, situada numa região plana, e como tal mais aberta a infiltrações de povos, não tem um tipo definido de habitantes. Nela predomina, entretanto, o homem de rosto moreno, cabelo negro e estatura média, semelhantes à raça líbia-fenícia. O tipo louro é também vulgar..

…essa raça fixou-se principalmente nas costas do nosso país e é nas classes piscatórias onde se encontram com maior frequência as características que a distinguem…

Vejamos como podiam ter vindo para a Glória e quais os pontos de semelhança com essas populações do litoral. Assim, o topo de casaco, a saia de muita rosa, a cinta, os pés descalços e o uso da saia pela cabeça e costas, constituem excepções aos hábitos da camponesa do Ribatejo. São antes cosntumes vulgares nas mulheres da Beira Litoral. O maior número destes impunha, como é natural, trajes e costumes, mas assimilava, entretanto dos primeiros povoadores, alguns outros mais fagueiros ao seu espírito. Desta interdependência saíram as regras e os hábitos a comunidade.

Enquanto o cingeleiro permanece na Glória conduzindo o seu gado e cultivando a sua terra, fechado a influências estranhas, o trabalhador rural vai para as lezírias, para as regiões da grande cultura, e ali entra em contacto com outros trabalhadores de que recebe infiltrações.

Na sua índole o gloriense é reservado e frio ao primeiro contacto, mas franco e acolhedor, hospitaleiro e bom, se mais na alma lhe penetramos…

São pacíficos, pouco brigões, o que amplamente se exemplifica com a nula percentagem de criminologia entre eles…

As poucas refregas que se davam, decididas a varapau, em cuja esgrima são mestres, desapareceram…

Todos se auxiliam, não sendo raras as provas de solidariedade prestadas a viúvas e órfãos de companheiros de trabalho…

As mulheres, nos campos para onde vão trabalhar, exigem quartéis separados, escolhem locais de faina também distantes dos outros ranchos e dançam à parte. Mas a justificação dessa desconfiança encontra-se nos seus costumes. É que, sendo tabu entre glorienses casar com gente de outras terras – e raras são excepções – evitam por todos os meios que o fogo se ateie, erguendo essas barreiras que os isolam…

Uma alta expressão do cuidado das glorianas, assim se apodam, está nas toucas e vestidos dos seus filhinhos. Qualquer touca vulgar é engrinaldada de dois e três franzidos, e o restante coberto de bordados vários. Nelas se esmeram, pondo-lhe na confecção toda a sua arte apurada…

A dança na Glória é muito cultivada. O vira, o fandango, o verde gaio, o bailarico, a remexida e a valsa serena têm a sua predilecção. Os glorienses dançam ao som do harmónio, da concertina, da guitarra, da gaita de curra-beiços ou da flauta…

Preferem as danças de enlaçamento, e de entre elas a remexida vertiginosa e impulsiva…

Os que ficam sem rapariga estão à volta, e, quando lhes apetece, afastam outro, tomando-lhe o par…

As cachopas não gostam que os seus pares se apurem na dança com requebros exagerados e passos que chamen a curiosidade da assistência.

Abandonam-nos no terreiro, fogem-lhe e exclamam:

- Cheta, cão!...

E eles galhofam e tetam arrastá-las para a vertigem das remexidas ou a suavidade das valsas serenas…

E é assim este povo admirável, que quer ser feliz e o merece.

Os seus pesares e lutas, folguedos e amores, o fazem poeta. Primeiro que outros o cantassem, ele se cantou…”

Não venho aqui para dar vivas,

Nem mesmo pra dar vitória,

Venho aqui pra agradecer

À Senhora da Glória.

Semeei, não apanhei

Milho miúdo n’areia

Quem semeia não apanha

Que fará quem não semeia.

In Alves Redol, Glória Uma Aldeia do Ribatejo

quarta-feira, 30 de junho de 2010

Festinha com as crianças

No passado dia 17 de Junho, as crianças do Jardim de Infância da Glória fizeram a sua festinha de final de ano, na Casa do Povo. Da vasta programação que as educadoras pensaram levar a cabo nesse dia, destacamos um momento que, para nós, glorianos, é bastante significativo: cerca de oitenta crianças, dos três aos cinco anos, vestiram-se (como crianças obviamente), à moda da Glória e cantaram e dançaram uma modinha do nosso folclore – Moda e Pêras. Este momento (bastante entusiasmante para crianças, familiares e professores, a julgar pelo número elevado de pessoas presentes) foi o culminar de um projecto de interacção que o Rancho da Casa do Povo levou a cabo, ao longo de três meses, com a escolinha. A grande finalidade era sensibilizar crianças e famílias para o vastíssimo património tradicional da nossa terra. Por isso, o projecto integrou outras actividades como jogos tradicionais, canto, mostra de instrumentos tradicionais (concertina, harmónio, gaita, pífaro de cana…), pesquisa sobre trajes infantis de diversas épocas, além de um ciclo de cinema infantil.
No próximo dia 3 de Julho, muitas destas crianças irão participar, de novo, ao integrarem a programação do 35º Festival de Folclore de Glória do Ribatejo, este ano subordinado à Infância. A programação terá início às 18.30h com jogos tradicionais infantis e continuará com o Cortejo às 19h e actuação às 22h, em que vai ser possível assistir a um programa inédito, cujas estrelas serão as crianças.


Rita Cachulo Pote

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Rancho Folclórico da Casa do Povo de Glória do Ribatejo




1956 / 2010 – 54 Anos ao Serviço da Cultura


Este mês, o Rancho Folclórico da Casa do Povo de Glória do Ribatejo está de PARABÉNS pelos seus 54 anos ao serviço da cultura.

Em Junho de 1956, pela mão de Celestino Graça, que frequentemente se deslocava aos campos agricolas, um rancho de mulheres, de Glória do Ribatejo, fazem uma primeira representação na Feira do Ribatejo, em Santarém.

Estas actuações não eram mais que as continuações dos bailaricos que ainda se realizavam na aldeia e nos trabalhos, e assim nascia de forma espontânea, o Rancho Folclórico da Glória.

Desta origem à sua constituição formal foi um pequeno passo, tendo sido integrado na Casa do Povo a 27 de Agosto de 1962.

A partir de então, foi adoptado para Rancho Folclórico da Casa do Povo de Glória do Ribatejo.

Ao longo destes cinquenta e quatro anos de existência, este grupo tem procurado, sempre, caminhar em busca das suas verdadeiras raízes, desenvolvendo ainda hoje um papel fundamental na pesquisa, divulgação, preservação e reconstituição de modos de vida da Glória.

Neste sentido, tem permitido ao grupo desenvolver variadíssimas actividades, como exposições, participação em congressos e colóquios, mostras gastronómicas, escola de folclore, concursos e festivais de folclore.

Tem sido um fiel embaixador da cultura gloriana, fazendo-se representar nos mais prestigiados festivais de folclore do pais e nas digressões ao estrangeiro, nomeadamente, à Suiça 1981, Itália 1985 (e irá estar na Europeada a representar Portugal de 19/07 a 30/07 deste ano em Bolzano/Itália), França 1987, Alemanha 1989, Dinamarca 2000, Espanha 2001, Madeira 2000, Ilha de S. Miguel /Açores 2001 e 2004, Faial e Pico/Açores 2007( e irá estar de o7/08 a 15/08 na Ilha Terceira/Açores) .

Todas estas acções têm permitido, também, aos elementos receber grandes contributos de carácter didáctico e pedagógico, no ponto de vista da formação cívica e moral de cada um.

Deste modo a contribuição deste grupo para a divulgação e valorização cultural da comunidade, do concelho e do distrito não tem sido pequena.


terça-feira, 25 de maio de 2010

“Olhar a Charneca”


No dia 13 de Maio, dia da espiga, o Rancho Folclórico da Casa do Povo de Glória do Ribatejo juntamente com crianças e pais fizeram um passeio pela charneca.
Este passeio, para além de se apanhar a espiga como manda a tradição, teve como objectivo principal a recolha dos nomes de cada erva e o seu registo fotográfico.
Foram fotografadas muitas, como as estevas, a carqueja, os garfos, as rocas, as espigas de trigo, as papoilas, entre muitas outras.
Ao terminar o passeio a Gilda ensinou-nos como se faz uma boneca com as papoilas, tal como a avó dela lhe ensinou. Basta um bocadinho de uma linha, puxa-se as pétalas para baixo e ata-se ao meio, depois é só partir um bocadinho do pé e passar entre as pétalas para fazer os braços da boneca. E fica como podemos ver na foto ao lado.
Para além de ter sido uma manhã bastante agradável, produtiva, de convívio e de ar puro, foi também muito gratificante para quem esteve presente.
O objectivo deste agrupamento não é só o dançar, cantar e representar, mas também registar e divulgar coisas da Glória.

domingo, 18 de abril de 2010

No dia de Páscoa

No passado dia 4 de Abril, dia de Páscoa, o Rancho Folclórico da Casa do Povo de Glória do Ribatejo fez uma demonstração de três cânticos religiosos, pertencentes ao folclore religioso da Glória. Essa intervenção foi perfeitamente integrada na missa, o que foi considerado pelo padre como partilha e algo que pode enriquecer o ser humano. Na verdade, o grande objectivo do grupo foi dar a conhecer, no espaço próprio, três preciosidades (tanto do ponto de vista poético, como melódico) que foram recolhidas por Idalina Serrão, nos anos sessenta, junto de mulheres idosas. Houve quem se recordasse dessas peças, por ter ouvido, noutros tempos, à mãe ou à avó. O grupo pôde confirmar mais uma vez que, seja em que área for, a sensibilidade da mulher gloriana é extraordinária e apaixonante para os que amam a cultura tradicional.

Rita Cachulo Pote , Abril de 2010

Torricado

No passado dia 1 de Abril, o Rancho Folclórico da Casa do Povo de Glória do Ribatejo, deu início a mais uma temporada de sabores da Glória, com o Torricado.

A meio do jantar e com uma conversa aqui outra ali foi tempo de silêncio… e contou-se o fado com o amigo e colaborador, o Sr. João Viana.

Logo de seguida, com o ambiente já animado, foi tempo para uma fandangada, com os elementos da casa e dois grandes amigos,Rancho Folclórico da Casa do Povo de Salvaterra de Magos.

E eis o momento mais aguardado da noite, os irmãos, Pedro Viana, à guitarra portuguesa e Bernardo Viana à Viola, tocaram umas modinhas bem portuguesas que fizeram os presentes aplaudir de pé. Na tertúlia em família, regressou o Sr. João Viana com mais uns fadinhos, desta vez, acompanhado pelos seus netos.

Foi sem dúvida uma grande noite de convívio, amizade e de sabor da gastronomia gloriana.

A festa prosseguiu com baile, até um pouco mais tarde, animada pelo grande músico e amigo, Nélson Teles.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Ofertas de Namorados

De entre os hábitos característicos que se podiam observar nos glorianos, há alguns que, pela sua singularidade, merecem ser estudados e divulgados. É o caso das ofertas que os namorados trocavam entre si, como forma simbólica de selar o seu compromisso. A época a que nos referimos (princípio do século XX, até às décadas de 60, 70) pode parecer demasiado recente, mas, se tivermos em conta a lenta evolução que esta sociedade sofreu até há pouco tempo, apercebemo-nos de que a influência da industrialização, nesta altura, era mínima e, por conseguinte, esses costumes permaneceram inalteráveis, desde tempos mais remotos.

Assim, no momento em que se consideravam “um para o outro”, a rapariga confeccionava um conjunto de peças de uso “vulgar” com que brindava o namorado: o taleigo do farnel, a carteira, a charteira, o lenço de assoar e o “lenço dos amores”. O curioso é que estas peças de vulgar nada tinham. Qualquer uma delas era extraordinariamente embelezada com motivos a ponto de cruz, como por exemplo, coroas (o pinto, a coroa dos corações, a coroa das estrelas, etc.), ramos (da sobreira torta, das bonecas, das pombas, etc.), o navio, cercaduras, estrelas e letras que representavam as iniciais dos nomes dele e dela, bem como dos “camaradas” de ambos. Os motivos mais antigos marcavam-se a duas cores – azul e encarnado ou verde e encarnado. Mais tarde, a partir da década de 40, verifica-se algum progresso em relação às cores e aos motivos. Desta época, existem muitos exemplares, marcados a cor-de-rosa e verde, cor-de-rosa e azul, cor-de-laranja e cor de lírio, amarelo e cor-de-rosa, etc. Já surgem rosas, cravos, cravinas e muitas iniciais, artisticamente combinadas. Nesta altura, estes lencinhos são tão profusamente decorados, que quase não resta pano em branco.

Quando e como eram usados?

O “lenço de assoar” andava escondido e usava-se todos os dias. O “lenço dos amores” era cuidadosamente dobrado em quatro pontas, evidenciando os biquinhos que rematavam a borda do lenço e usava-se à frente, na cinta. Semelhantes eram os das raparigas, principalmente, ao Domingo, também na cinta, ligeiramente à esquerda ou à direita.

Resta referir o lenço “à pacha”, usado no dia de ir “às sortes”. Este era um lencinho mais pequeno, também dobrado em quatro pontas e colocado no bolso esquerdo do colete, por baixo da bolsa de relógio. Normalmente, os motivos eram marcados a dois fios, o que tornava a peça mais preciosa. Este pormenor era bastante significativo, pois, quanto mais prendada fosse a rapariga, (e isso examinava-se pelos seus dotes de costura) mais merecedora era do namorado e da sua família.

Em contrapartida, o rapaz oferecia também à rapariga pequenas prendas. Bastava uma “navalhinha bonita” para fazer a felicidade dela. Mas havia muitos rapazes que faziam questão que a sua namorada evidenciasse, de forma bastante expressiva, a sua ligação. Desse modo, ela recebia várias alianças de prata, cravadas de pedrinhas às cores que, no conjunto produziam um certo efeito exibicionista.

Mais tarde, e mostrando também as suas habilidades de artesão, ele confeccionava, pacientemente, algumas miniaturas (cestinhas, cadeirinhas, bolotas) que ela usava ao peito com um raminho de manjerico. Estas miniaturas eram feitas de pau de murtinheira, com a ajuda de uma simples navalha.

Estes motivos talvez possuíssem, em si, algum simbolismo, já que eram sempre estes e não outros. Provavelmente, seriam uma espécie de promessa de futura vida conjugal, pois a cesta e a cadeira são objectos domésticos, de uso quotidiano, e a bolota é símbolo de alimento.

Recolha de Rita Cachulo Pote (Dezembro/2005)

Informadoras: ti Bárbara do João Modesto

e ti Gertrudes Luciana