quarta-feira, 9 de março de 2011

Estatuto de Pessoa Colectiva de Utilidade Pública

Após décadas de dedicação ao estudo, preservação e divulgação dos múltiplos aspectos que constituem a cultura gloriana, em que muitas centenas de glorianos tiveram a possibilidade de contribuir com o seu empenho, a Associação Rancho folclórico da Casa do Povo de Glória do Ribatejo vê reconhecido o esforço, bem como o papel relevante que a mesma tem desenvolvido, quer na própria comunidade, quer num seio mais alargado.
Esse reconhecimento traduziu-se na atribuição do Estatuto de Utilidade Pública, no passado dia 1 de Março, conforme se pode ler no diploma publicado no Diário da República.
A Associação encara esta atribuição com muita satisfação, mas reconhece de igual modo que este estatuto lhe exige responsabilidades acrescidas, em que todos os associados têm a sua quota de responsabilidade na resposta a essa exigência.



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quarta-feira, 2 de março de 2011

Participação do Rancho Folclórico da Casa do Povo de Glória do Ribatejo no programa, Companhia das Manhãs, na SIC

No dia 28 de Fevereiro, o Rancho Folclórico da Casa do Povo de Glória do Ribatejo participou no programa, Companhia das Manhãs, dedicado às tradições, na SIC.
A participação consistiu na recriação de um fandango de taberna e na apresentação de algum do artesanato da Glória.
O fandango de taberna era associado como um jogo, disputado entre os homens e ganhava aquele que fosse o mais criativo na execução dos passos.
Quanto ao artesanato, pode-se observar a singularidade dos trajes glorianos, destacando-se, na conversa, os lenços dos amores e as tocas dos bebés.
Todos os trajes, tanto o da mulher, como o dos homens e também das crianças, assim como de todo o enxoval, eram confeccionados pelas mãos das mulheres glorianas, que, numa época de escassos recursos, faziam dos trapinhos, verdadeiras obras de arte.
Com esta participação, o Rancho Folclórico da Casa do Povo de Glória do Ribatejo sente que enriqueceu o programa televisivo e contribuiu, uma vez mais, com aquilo que é a sua principal missão - a salvaguarda e divulgação das tradições da nossa Glória.


segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

No Mosteiro dos Jerónimos

A actividade do Rancho Folclórico da Casa do Povo de Glória do Ribatejo não se restringe à época de Verão nem se limita à apresentação de danças, trajes e cantares. Mesmo que assim fosse, já não faria pouco. Ora pesquisando, ora reconstituindo, estudando, registando, este grupo espraia a sua actividade por múltiplos formatos que visam um objectivo comum - persistir na divulgação de uma cultura sui generis que expressa uma riqueza espiritual extraordinária.
Foi assim que no passado dia 27 de Janeiro, o grupo se deslocou ao Mosteiro dos Jerónimos, a fim de corresponder à solicitação da Associação para a Defesa do Património AHP- Aldeias Históricas de Portugal - de se tornar sócio patrono da mesma associação, a qual conta com a participação de algumas figuras ilustres do meio académico português.
O programa consistiu na reconstituição do casamento à moda da Glória, onde não faltaram os trajes característicos da ocasião, o ritual das amêndoas atiradas ao ar, o arroz doce e duas ou três modas do folclore gloriano. A originalidade do nosso modo de ser foi bastante apreciado (e fotografado) e estamos certos de que demos mais um pequeno passo para a valorização do património imaterial da Glória, que poderá ser uma forma de potenciar a terra em prol dos seus habitantes.
Rita Cachulo Pote




domingo, 12 de dezembro de 2010

O Ti Bruxa


Desde sempre, em todas as comunidades, houve pessoas que se impuseram, por uma razão ou outra, mesmo involuntariamente, tornando-se figuras carismáticas, em torno das quais, as sociedades organizavam costumes, atitudes, modos de estar.

Na Glória, houve também algumas destas personagens: o ti Bruxa, cuja vivência foi tão marcante, que chegou até aos nossos dias.

António Alexandre Monteiro nasceu em 1896 e faleceu em 13 de Abril de 1974, curiosamente, duas semanas antes do 25 de Abril. Dos seus longos 78 anos, conta-se, segundo a sua filha mais velha (hoje com 89 anos) uma infância humilde, como a de qualquer criança da sua condição, a que deve acrescentar-se uma particularidade – o medo das bruxas. Daí resultaria a sua alcunha que se estenderia a toda a família, até aos nossos dias.

Homem de estatura bem constituída, o ti Bruxa viria a revelar dotes invulgares para a música, tornando-se, sem favor, um exímio tocador de harmónio. A sua “habilidade”, aliada à raridade de instrumentos que caracterizava a época, depressa fizeram dele uma figura querida entre toda a gente, principalmente, dos mais jovens, que não tinham outra fonte artística senão as vozes femininas e as gaitas de beiços, uma ou outra guitarra. O harmónio era um luxo para o tempo.

Era de tal forma contagiante a sua expressividade que, em sua própria casa, tocava para a família, filhos e filhas, dançando com a mulher, ao mesmo tempo que tocava (segundo testemunhos dos filhos).

Esse protagonismo faria com que os capatazes facilmente arranjassem umas boas dezenas de trabalhadores, no caso do ti Bruxa estar incluído no grupo (ainda que o preço da jorna fosse mais baixo).

A sua actividade, enquanto tocador, foi intensa e longa, não tendo conta o número de bailes que realizou, quer na rua, debaixo do chaparrão ou nos trabalhos.

Tocou, ainda, no Rancho da Glória (foi o primeiro tocador do Rancho), tendo-se deslocado em 1956 à Feira do Ribatejo, a Santarém, onde (segundo testemunho de um filho) Celestino Graça teria feito uma gravação, cujo destino desconhecemos. Sabe-se que continuou no Rancho, por mais algum tempo, ficando, nas instalações da Casa do Povo, o velho harmónio do ti Bruxa.

Estamos convencidos de que a maior parte do repertório que este grupo hoje apresenta foi transmitido, directamente, sem interrupções temporais, através deste homem, que nos deixou, por isso, um legado importantíssimo, bem como alguns discípulos, como, por exemplo, Narciso Sousa, tocador de gaita de beiços. O seu talento pode atestar-se, ainda hoje, através de uma gravação rústica, efectuada pelo próprio, já no fim da vida.

Recolha de Alexandra Dias e Rita Cachulo Pote (Maio / 2007)

Informadores: Filhos do Ti Bruxa

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

A Praça

A Glória foi, até há pouco tempo, uma comunidade quase exclusivamente rural, pelo que a praça teve uma importância bastante significativa na vida desta comunidade.
Tratava-se de uma circunstância de grande dinâmica, pois aí se decidia a vida das três ou quatro semanas seguintes. Ir trabalhar para este ou para aquele, ganhar mais cinco escudos ou menos cinco escudos, eram condições bem pensadas e bem negociadas. Era, por isso, um momento em que toda a gente (os que iam trabalhar e os que não iam) se juntava na rua: as mulheres, em grandes magotes, no “Largo da Praça”, os homens, dentro das tabernas ou à porta, também em grandes grupos. A capataza “falava” às mulheres, o capataz, aos homens.
Ao Domingo à noite, começava a reunião que se prolongava pela tarde de segunda-feira, agrupando-se os seus elementos, por hierarquias. As cachopas juntavam-se por mocidades, as mulheres casadas formavam outros grupos, o mesmo acontecendo relativamente aos homens. Para os cachopos, este era um momento privilegiado para a brincadeira, “furando” por entre os magotes, puxando os lenços e as saias às mulheres. O ambiente proporcionava-se ao uso, por parte das solteiras, de “roupas bonitas”: casaquinhos bem empregueados, aventais novos. As mulheres casadas punham toda a sua luxúria nas roupas dos meninos que traziam ao colo: vestidinhos marcados, toucas engalanadas.
A escolha deste ou daquele patrão tinha origem em vários factores, mas o que mais contava era o preço da jorna. Contudo, havia outras condições que entravam em linha de conta, como as camaradas, a duração (por semanas), o divertimento, o quartel, etc.. O contrato, (sempre verbal) selava-se com a molhadura.
Para os homens, meio litro de vinho, as mulheres davam-se a pequenos capricho
s. Para elas, a simbólica molhadura era representada por uma meada de linha para marcar (cor-de-salsa, cor-de-laranja, cor-de-rosa, cor-de-lírio), de entre muitas que se encontravam numa caixinha de cartão e que a capataza dava a escolher. Em jeito de exibicionismo, as raparigas pregavam no avental ou no casaco duas ou três molhaduras, divulgando dessa forma as suas qualidades, já que cada molhadura representava um contacto ou um contrato.
Assim, até à escolha final do patrão, a praça durava at
é à tardinha de segunda-feira, podendo ver-se, pelas ruas, as mães com os farnéis já aviados, à cabeça, enquanto as raparigas aproveitavam os últimos momentos, antes duma ausência que podia ser de três ou quatro semanas.


Texto de Rita Cachulo Pote (Março/2007)
Recolha Colectiva (Rancho Folclórico da Casa do Povo de Glória do Ribatejo)